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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Morreu Carlos Pinto Coelho, o senhor “Acontece”


Jornalista tinha 66 anos 

Carlos Pinto Coelho despediu-se, durante nove anos, dos telespectadores com a frase “E assim, Acontece”. Morreu ontem, aos 66 anos, em Lisboa.

O jornalista Carlos Pinto Coelho morreu, ontem, aos 66 anos, em Lisboa, na sequência de uma intervenção cirúrgica à aorta no Hospital Santa Marta para onde foi transferido depois de ter sido internado de urgência no Hospital de São José, segundo a agência Lusa.

Gostava que lhe chamassem “o senhor Acontece”, considerava ser essa “uma forma gentilíssima” de lembrar os nove anos, em que diariamente, acabava o magazine cultural que teve na RTP2, de 1994 a 2003, com a célebre frase: “E assim, Acontece”.

O programa foi cancelado no final de Julho de 2003 pela administração então liderada por Almerindo Marques, duas semanas antes da data em que estava anunciado o seu regresso depois das férias de Verão. Na altura, Carlos Pinto Coelho estava à espera da resposta ao seu pedido de rescisão do contrato, no âmbito de um plano de rescisões que a RTP abrira quase um ano antes. O jornalista estava na RTP há 26 anos.

José Rodrigues dos Santos, que era então o director de informação, estava ausente do país quando o programa foi oficialmente cancelado. Mas mostrou-se contra a rescisão do contrato de Carlos Pinto Coelho.

Carreira abrangente

Carlos Pinto Coelho ficou conhecido pela intervenção na área do jornalismo cultural, mas teve uma carreira abrangente. Começou a sua carreira jornalística no “Diário de Notícias”, como estagiário, em 1968, depois de ter abandonado o curso de Direito no último ano e de ter chumbado na oral de Direito das sucessões.

Além de repórter deste jornal, Carlos Pinto Coelho foi um dos fundadores do diário “Jornal Novo”, foi redactor da Agência de Notícias portuguesa ANI, director executivo da revista “Mais”.

Na rádio foi locutor das estações TSF, Rádio Comercial, Antena1 e Teledifusão de Macau. Na televisão foi chefe de redacção do Informação/2, da RTP2, director de Cooperação e Relações Internacionais, director-adjunto de Informação e director de programas da RTP durante quatro anos.

Na opinião de Joaquim Vieira, que com ele trabalhou, o que mais o distinguiu foi a projecção que deu à cultura. “Era a menina dos olhos dele. E sempre acreditou que viesse alguém que o chamasse a fazer de novo o “Acontece”. É curioso, há hoje na RTP2 uma tentativa de fazer um “Acontece”, o “Câmara Clara”, sem ser um “Acontece”. É o reconhecimento de que o programa fazia sentido e havia necessidade dele. É uma homenagem indirecta a ele”, acrescenta o jornalista Joaquim Vieira.

Pelo programa “Acontece” – que chegou a ser o mais antigo jornal cultural da Europa e acabou depois de uma polémica com o ministro Morais Sarmento que afirmou que seria mais compensador oferecer uma volta ao Mundo a cada espectador - recebeu o Prémio Bordalo e o Prémio do Clube de Jornalismo.

Foi condecorado com o Grau da comenda da Ordem do Infante D. Henrique por Jorge Sampaio, em 2000, e era oficial da Ordem das Artes e das Letras de França (2009).

Carlos Pinto Coelho nasceu em Lisboa mas viveu em Lourenço Marques (agora Maputo, Moçambique) até aos 19 anos, altura em que regressou a Portugal. Daí vinha certamente o seu grande interesse pela África lusófona (teve um programa que se chamava “Em Português nos Entendemos”). Outra das suas paixões era a fotografia. Começou a expor em 1992 e ao longo da vida lançou vários livros de fotografia “A Meu Ver” (editora Pegasus, 1992), foi co-autor “Do Tamanho do Mundo” (Ataegina/1998), publicou “De tanto Olhar, fotografias e textos seus e com um prefácio de Lídia Jorge na editora Campo das Letras. E “Assim Acontece - 30 Entrevistas Sobre Tudo... E o Resto”, livro publicado em 2007.

Era professor de jornalismo na Escola Superior de Tecnologia do Instituto Politécnico de Tomar desde 2003 e estava a preparar uma série de entrevistas a personalidades para o programa “Conversa Maior”, a emitir na RTP Memória.

fonte: Público

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Moore dá 20 mil euros a Assange para pagar caução


O realizador norte-americano Michael Moore disse ontem que ofereceu 20 mil euros ao fundador do portal WikiLeaks, Julian Assange, para ajudá-lo a pagar uma caução em tribunal

O cineasta anunciou ainda que coloca o seu próprio "site" e o seu servidor à disposição para ajudar o WikiLeaks a continuar a difundir informações secretas.

O fundador do WikiLeaks está detido em Londres, onde um tribunal decidirá se atende o pedido de extradição apresentado pela Suécia, onde é acusado de crimes sexuais. A caução reclamada a Assange para poder estar em liberdade condicional ascende a 200 mil libras (cerca de 238 mil euros).

"Embarcámos na guerra no Iraque com base em mentiras. Centenas de milhares de pessoas morreram. Imaginem apenas o que teria ocorrido se os homens que planearam este crime de guerra em 2002 tivessem que lidar com o WikiLeaks", escreve Michael Moore em comunicado.

fonte: DN

sábado, 11 de dezembro de 2010

Manoel de Oliveira está de parabéns

Realizador português celebra hoje o seu 102.º aniversário. Amanhã estará em Santa Maria da Feira a convite do Festival de Cinema Luso-Brasileiro, que o homenageia.

(Vídeos no fim do texto)


Manoel de Oliveira: «Foi o viver que me ajudou a fazer cinema e não o contrário»

O realizador português Manoel de Oliveira celebra hoje no Porto 102 anos, em família e a descansar, porque o relógio não pára e no domingo estará em Santa Maria da Feira a propósito de... cinema.

Fonte da família explicou à agência Lusa que Manoel de Oliveira passará um dia "recatado", com um jantar em família e com filhos, netos e bisnetos a celebrarem a longevidade do mais velho realizador mundo ainda a trabalhar.

Homenagem no Festival de Cinema Luso-Brasileiro

No domingo, Manoel de Oliveira estará em Santa Maria da Feira a convite do Festival de Cinema Luso-Brasileiro, que o homenageia, para mostrar o mais recente filme que rodou, "O estranho caso de Angélica".

A longa-metragem, que recupera um argumento de Manoel de Oliveira com mais de cinquenta anos, ainda não tem estreia comercial nos cinemas, nada que deva perturbar muito o realizador que já só pensa nas próximas produções.

Projetos na 'manga'

Na quinta-feira esteve em Serralves, no Porto, onde foi exibida a curta-metragem "Painéis de São Vicente de Fora, visão poética" e no final o cineasta disse aos jornalistas que há vários projetos que têm que ser feitos antes "de passar desta para a outra".

Manoel de Oliveira não tem medo da morte, mas do sofrimento, e remete para os astros a energia e a sorte de ainda estar vivo e a trabalhar.

Já lá vão quase oitenta anos desde que Manoel de Oliveira, então com 23 anos, estreou a curta-metragem documental "Douro, faina fluvial", um fresco mudo, a preto e branco, sobre a relação do Porto com o rio Douro.

Esse filme foi feito com uma câmara de filmar oferecida pelo pai e com a ajuda do amigo e fotógrafo António Mendes.

A estreia desse filme aconteceu a 19 de setembro de 1931, no mesmo dia em que morreu Aurélio da Paz dos Reis, considerado o pai do cinema português.

"A própria vida não tem nada de original"

Agora, que Manoel de Oliveira tem 102 anos e que o cinema já é também em 3D, "Douro, faina fluvial" voltou pela primeira às salas comerciais restaurado e remasterizado a acompanhar a exibição de um dos mais conhecidos filmes dele, "Aniki Bobó" (1942).

Aos 102 anos, o passado teima em estar presente quando se fala de Manoel de Oliveira, mas o realizador defende que "a própria vida não tem nada de original".

"Foi o viver que me ajudou a fazer cinema e não o contrário", resumiu.




fonte: Expresso

domingo, 5 de dezembro de 2010

O homem que viveu depressa de mais


Na Gulbenkian, em 26 de Abril de 1976

Quem foi Francisco Sá Carneiro? Trinta anos após Camarate, há muitas perguntas por responder. Foi um dos fundadores do regime e emancipou a direita. Desafiou as convenções do país e obrigou-o a aceitar a sua paixão por Snu Abecassis. Tinha pressa e morreu novo. Deixou-nos a tarefa de escrever o seu futuro.

Passava das nove da noite, mas havia uma grande agitação nos corredores da estação de metropolitano do Rossio, em Lisboa. Naquela quinta-feira, 4 de Dezembro de 1980, a Praça D. Pedro IV acolhia o comício de encerramento da campanha para a reeleição do Presidente, o general Ramalho Eanes. Mas se os corredores do metro estavam agitados, a praça estava estranhamente calma e as pessoas a saírem. O comício fora cancelado devido à morte do primeiro-ministro, Francisco Sá Carneiro, e da sua companheira, Snu Abecassis, do ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa e da sua mulher, do chefe de gabinete do primeiro-ministro, António Patrício Gouveia, e dos dois tripulantes do Cessna que caíra em Camarate às 20h17. O silêncio e a estupefacção que se sentiam na praça adquiria outros contornos à medida que nos afastávamos do local do comício. O sinal de luto e de respeito que significara o cancelamento do comício não era necessariamente correspondido pelas bases; desse lado da rua, também se viam sinais de regozijo pelo desaparecimento de um homem que partia o país ao meio, um homem ao mesmo tempo amado e odiado, Francisco Sá Carneiro.

Cerca de uma hora mais tarde, em Caxias, nos arredores de Lisboa, este repórter, então estudante universitário, deparava com o lado enlutado da rua portuguesa. Na esplanada do café, às escuras, todos seguiam em absoluto silêncio as notícias na rádio, que ouviam através de duas colunas de uma alta-fidelidade que alguém trouxera de casa. Era impossível exprimir a perda irreparável, inesperada e, no limite, impossível de aceitar para os apoiantes da Aliança Democrática (AD), a coligação entre o PSD, o CDS e o PPM que semanas antes havia renovado a maioria absoluta que já tinham conseguido em 1979.

Francisco Sá Carneiro desaparecia de cena aos 46 anos na misteriosa queda de uma avioneta em Camarate, que a última de oito comissões parlamentares de inquérito classificou em 2004 como atentado. Mas nessa noite de 4 de Dezembro de 1980, a direita portuguesa sofrera algo incomensuravelmente pior do que qualquer derrota eleitoral. Perdera o líder que a emancipara e lhe dera "direito de cidade" no regime saído do 25 de Abril. Trinta anos depois, é isso que sublinha Vasco Pulido Valente, secretário de Estado da Cultura de Sá Carneiro na AD e um dos seus mais próximos conselheiros políticos.

"Francisco Sá Carneiro deu um grande passo para a democratização do regime. Fez uma coisa que foi decisiva depois do 25 de Abril. Levou a direita legalmente para o poder. Deu o direito à direita para governar. A direita foi eleita democraticamente e governou o país serenamente e democraticamente, sem qualquer tipo de perseguições", diz ao P2. "[Sá Carneiro] não chegou a ser derrotado, morreu apenas. Derrotados foram os sobreviventes. Ele ficou uma perpétua possibilidade que nada alterou ou jamais poderá alterar", escreveu Pulido Valente sobre Sá Carneiro, há duas décadas, no PÚBLICO, descrevendo de forma precisa as condições que o transformaram num mito. Nada mudou desde então na visão que tem do advogado do Porto que aceitou ser deputado da Ala Liberal (1969-1973) no consulado de Marcello Caetano, fundou o então Partido Popular Democrático 11 dias após o 25 de Abril (a 6 de Maio) e foi o primeiro político português a governar com uma maioria absoluta. É um dos fundadores do regime democrático.

"Ele faz falta"

"Houve duas pessoas excepcionais na política portuguesa - ele e Mário Soares. Tinham os dois um toque mágico. Sá Carneiro tinha a capacidade de ver realisticamente o estado em que está a sociedade que ele se propõe governar, de apreciar realisticamente os meios possíveis para agir sobre ela", diz o historiador.

Francisco Pinto Balsemão acompanhou todos os passos decisivos da vida política de Sá Carneiro e sucedeu-lhe como primeiro-ministro a seguir à tragédia de Camarate e à reeleição de Ramalho Eanes como Presidente. Liderou a AD durante três anos e negociou a revisão constitucional de 1982 que extinguiu o Conselho da Revolução, reduziu os poderes do Presidente e pôs fim à tutela militar do regime - o Conselho tinha poder de veto sobre todas as políticas governamentais. Eram as principais mudanças pelas quais Sá Carneiro tinha lutado e em nome das quais tinha garantido que não continuaria na chefia do Governo, se o candidato da AD a Belém, o general Soares Carneiro, perdesse as eleições de 7 de Dezembro, como veio a acontecer. "Eu tinha combinado que sairia com ele, mas depois não tive alternativa se não ficar", diz ao P2, numa conversa por telefone. Balsemão aceitou o papel difícil de suceder a Sá Carneiro e teve um mandato controverso à frente do Governo da AD. Era afinal de contas o último acto de uma relação política iniciada na primavera marcellista, quando os deputados da Ala Liberal acreditaram ser possível mudar o Estado Novo por dentro.

"Conhecemo-nos na Assembleia Nacional. Ficámos sentados ao lado um do outro, éramos companheiros de carteira, porque os deputados sentavam-se por ordem alfabética." Noutra primavera, a de 1974, o programa do PPD seria escrito, num clima de grande euforia, na casa de Balsemão, na Quinta da Marinha. Nessa altura, recorda o militante número 1 do PSD, Sá Carneiro era uma pessoa menos reservada do que nos primeiros anos de Lisboa. Mas os principais traços da sua personalidade permaneceriam os mesmos.

"Era um individualista no sentido em que se achava que devia fazer as coisas, fazia-as, não perguntava a ninguém. No tempo da Assembleia Nacional, aparecia com os projectos todos feitos. Depois, claro, aceitava que se fizessem correcções, não era um ditador", recorda Pinto Balsemão.

"Ele ia para a frente e quem quisesse que o acompanhasse. E isto está muito ligado à sua capacidade de antevisão. Ele via para além do trimestre, projectava-se no futuro dos cenários que estudava e procurava alcançar", afirma. E conclui: "Era uma pessoa com uma enorme coragem moral e física, não tinha medo das consequências das suas opções. Ele faz falta."

E se não tivesse morrido?

O mito de Sá Carneiro não é apenas a consequência de uma morte trágica e da forma frontal como fazia política, preferindo a ruptura, mesmo sendo capaz de consensos, como qualquer outro político. "Era um homem beligerante, apreciava a luta política e tinha uma intuição notável, via rapidamente as contradições a acreditava pouco nas possibilidades de uma via conciliatória. Nisso era a antítese de Mário Soares, que também rompia, mas dava sempre a ideia de ser favorável à conciliação", lembra Rui Machete, militante desde os primeiros tempos do partido e que acompanhou muito de perto Sá Carneiro durante vários anos, até romper com o PSD na altura das Opções Inadiáveis, ao lado de Sousa Franco.

Trinta anos depois, há muitas perguntas sobre Sá Carneiro que continuam à espera de resposta. É como se as suspeitas em torno da sua morte tivessem ofuscado as contradições de uma personalidade enigmática. O que movia Sá Carneiro? O que o levou a trocar a vida confortável de advogado bem sucedido no Porto pelo combate político em Lisboa? O que explicava essa ansiedade permanente, essa pressa, essa necessidade de desafiar o perigo? Como é que um político que se assumira como social-democrata e que queria disputar a Soares os favores da social-democracia europeia se torna o capitão da direita em ruptura com os militares e com o regime? Qual era a sua verdadeira identidade ideológica? Porque é que nunca houve um entendimento político entre ele e Soares? Como é que o líder de um partido conservador, casado, cuja formação cívica começou em grupos católicos assume uma paixão amorosa que levou até às últimas consequências? Há várias respostas para estas e outras perguntas e todas concorrem para tentar explicar o seu carisma, a sua singularidade e a sua complexidade. Mas o enigma de Sá Carneiro continua a desafiar respostas únicas e, em última análise, é esse o factor que alimenta o mito. E que permite que ainda hoje nos interroguemos sobre que país teria existido se Sá Carneiro não tivesse morrido e o que realmente sobra do seu legado na política de hoje - uma ideia que o colunista do PÚBLICO, Pedro Lomba, sintetizou, em Novembro, no lançamento da biografia do político social-democrata por Maria João Avillez, Francisco Sá Carneiro, Solidão e Poder, quando disse que "o contraste com a classe política deste tempo não poderia ser mais ostensivo".

A imagem do homem impaciente e apressado era captada dentro e fora dos meios políticos. Pedro Passos Coelho, o actual líder do PSD, tinha 16 anos, quando aconteceu Camarate. O Sá Carneiro que ele via da rua era "um homem extremamente afirmativo, que vivia muito intensamente a relação com a política, que parecia ter muita pressa, de algum modo impaciente. Não era um grande orador, mas era cortante no que dizia e ia rapidamente ao assunto e fazia da confrontação directa, até agressiva, um dos traços mais marcantes da sua comunicação política", diz ao P2. O eurodeputado Paulo Rangel ainda era mais novo nessa altura - tinha 12 anos a 4 de Dezembro de 1980. "Cresci no seio de uma família que, politicamente, depois do 25 de Abril, se definiu desde o início como sá-carneirista. Não éramos pê-pê-dês, éramos sá-carneiristas, o que explica que, em cada ruptura ou cisão, ficássemos sempre do lado dele. Sá Carneiro não era apenas um líder admirado, era um líder amado", refere Rangel, em declarações por correio electrónico.

O lado aristocrático

Quem acompanhou um líder que muitos consideravam inconstante, destaca, pelo contrário, a sua fiabilidade. José Medeiros Ferreira fora ministro dos Negócios Estrangeiros no primeiro Governo do PS, em 1976-77, mas esteve com Sá Carneiro em 1979, quando o movimento dos reformadores - onde estavam também António Barreto e Francisco Sousa Tavares - foi uma espécie de "ala esquerda" da AD.

"Sá Carneiro não queria ficar prisioneiro da direita", diz o historiador. "Sendo emotivo, tinha métier político, uma coisa mais rara do que se pensa. O que ficava estabelecido era executado, era uma personalidade fiável." Carismático? "Não há carismáticos à partida e é o poder que faz isso, mas ele foi-o. Achava-o voluntarioso e determinado." Como Pulido Valente, compara-o a Soares, mas noutros termos: "O melhor animal político do regime é Soares; depois, em segundo lugar, Sá Carneiro, mas não era a mesma coisa. Havia um lado importante - as coisas eram mais transparentes, ele não dissimulava. A arte da dissimulação é uma arte católica portuguesa. Os grandes talentos políticos portugueses são dissimulados e Sá Carneiro não era dissimulado."

Talento e confiança são as palavras que Vasco Pulido Valente escolhe para resumir uma relação política muito próxima com Sá Carneiro. "Tinha uma grande confiança nele. Era muito educado; tinha lido muito, sobre arte, sobre história, sobre arqueologia, sabia imenso sobre arqueologia e da sua profissão, era um bom advogado. Era uma pessoa segura de si própria. Tinha um grande talento político. E não era uma pessoa fechada, pelo contrário."Rui Machete encontrava-lhe um lado aristocrático: "Apreciava as boas coisas da vida, um bom vinho, uma boa comida, uma boa conversa. Era muito aristocrata na sua maneira de ser e de viver." Para o antigo ministro da Justiça do Bloco Central, Sá Carneiro "não era um conservador típico. Vive rapidamente, urgentemente, impacientemente".

Esse sentimento de urgência, essa premonição de que iria morrer cedo são descritos por Maria João Avillez na sua biografia de Sá Carneiro - que a autora relaciona com o acidente de viação que sofre em 1973 e com a doença que o obriga a sair do país em 1975. Rui Machete testemunhou este sentimento numa conversa que teve com Sá Carneiro. "Ele disse-me um dia isto: "Você não tem a experiência do que eu vivi. Eu estive praticamente do lado de lá e agora cada dia que passa é um dia que eu vivo com prazer, que eu tenho de apreciar, porque é uma oportunidade." E isso dá-lhe uma sensação de urgência."

Contra a maré

Há três momentos-chave na vida política de Francisco Sá Carneiro. O ponto comum a todos eles é terem sido interrompidos antes de chegarem ao fim. Primeiro são os três anos como deputado à Assembleia Nacional. Sai quando compreende que a mutação do regime é impossível. Em 1974, age com tremenda rapidez e monta o então PPD num ápice. Torna-se o principal apoio do primeiro chefe do Governo do pós-25 de Abril, Adelino da Palma Carlos. Mas demite-se com o primeiro-ministro e o Governo cai, sem poder para impor a eleição presidencial de Spínola nesse mesmo ano, numa tentativa de inverter o calendário estabelecido pelo MFA. O terceiro é a efémera maioria absoluta da AD. Pelo meio, há um período de desânimo e afastamento, entre 1974 e 1975 e um combate dentro do PSD. Em cada um desses três momentos, Sá Carneiro lutou contra a maré. Em 1979, mesmo depois de ter alcançado a maioria absoluta, tinha pela frente um obstáculo que não teria conseguido superar e que condicionava todo o seu projecto político: a reeleição de Ramalho Eanes e, com ela, a continuidade no poder dos militares.

Depois de 1974, o seu grande rival político era Mário Soares, com quem partilhou as profundas reservas quanto ao papel dos militares e que não acompanhou o PS no apoio a Eanes nas presidenciais de 1980. O entendimento entre ambos esteve mais do que uma vez na mesa, mas nunca se concretizou. "Sá Carneiro teria sempre dado prioridade ao PS para fazer um governo de maioria", relembra Pinto Balsemão. Mas os militares e Eanes eram a nemésis do líder social-democrata.

"O verdadeiro gargalo político [da AD] foi esse", afirma Vasco Pulido Valente. "Eu não achei até certa altura impossível que Eanes e Sá Carneiro se entendessem para tirar os militares do poder. Quando ganhámos em 1979, opus-me ao confronto imediato com ele." Para o historiador, "Eanes é um conservador, mas é um militar. Não se deixam soldados mortos no campo de batalha. No fundo, queria proteger os amigos e que não houvesse represálias. Queria tirar o exército da política, mas não sabia como o fazer".

Eanes não gostava de Sá Carneiro. Num depoimento ao Expresso, publicado há uma semana, classificava-o de "tacticista". Disse ainda ter temido pela sua vitória eleitoral, quando soube da queda da avioneta. Mas foi o contrário que aconteceu, apesar da tentativa de transformar o funeral de Sá Carneiro, na véspera da eleição, num acontecimento mediático para manter vivas as chances do general Soares Carneiro - que, segundo Vasco Pulido Valente, era uma excelente pessoa mas tinha "o encanto político de uma lista telefónica". Sem Sá Carneiro, desaparecia o núcleo que mantinha coesa a AD."Aquilo não era uma coligação. Era a autoridade do Sá Carneiro a cem por cento, o Diogo Freitas do Amaral acabou por ser um discípulo. Era um grande organizador e pôs aquele Governo a funcionar", lembra Pulido Valente. "Sá Carneiro era o cimento e a locomotiva da AD", diz Pinto Balsemão.

Medeiros Ferreira esteve com a AD até às legislativas de 1980, mas apoiava Eanes, que acompanhará depois no partido eanista, o PRD, em 1985. E tem outra perspectiva sobre o conflito entre Sá Carneiro e os militares. "Ele sabia que a AD ia ter a vida negra com o Eanes, a não ser que ele fizesse uma negociação. E não se entendeu com Eanes até 1980, porque pensou que o podia derrotar", afirma o historiador, para quem não é claro que o líder da AD viesse a deixar o poder a seguir às presidenciais. "Sá Carneiro usou a questão da disputa entre o poder civil e o poder militar para ser eleito; não sei se iria manter essa disputa depois. Admito que como ia haver uma revisão constitucional em 1982 isso poderia ser negociado."

"Ele atira à cabeça da figura social mais odiada pela direita nessa altura, que é a instituição militar que fez a revolução. Com ele, teria havido uma transição democrática, civil. Fica muito irritado com o incidente do 25 de Abril, o cálculo dele era outro, estava à espera de uma solução mais à espanhola", prossegue Medeiros Ferreira. "Ele desconfiava muito dos militares, desde o princípio. Ele corporiza muito uma ideia de restabelecimento de uma vida política normal, democrática, um não rompimento bruto em relação ao Ultramar", diz Rui Machete.

Machete lembra a entrevista que Sá Carneiro fez para o Expresso em 1975 - que acabaria por não ser publicada pelo semanário, uma vez que Sá Carneiro, então a viver em Espanha, escrevera as perguntas e as respostas, como recorda Miguel Pinheiro na biografia Sá Carneiro - na qual ataca os militares moderados do grupo dos Nove. Afastado de Portugal, ele parecia não compreender a relevância do grupo de Melo Antunes, Vasco Lourenço e Vítor Alves para conter a esquerda radical dentro do exército. Para Medeiros Ferreira, a razão desse ataque - que depois seria amenizado - era outra: "O grupo dos Nove, pela sua moderação, era um concorrente directo de Soares e de Sá Carneiro, por muito que se aliassem circunstancialmente contra o gonçalvismo. Tanto Soares como Sá Carneiro viam com maus olhos a perpetuação do poder militar, mesmo que fosse moderado. Ou sobretudo se fosse moderado, porque era concorrente." Os dois temiam que o regime evoluísse para um socialismo militar terceiro-mundista e partilhavam um europeísmo convicto e o mesmo modelo de democracia parlamentar.

O ano da descrença

O Sá Carneiro que passa grande parte do ano de 1975 em San Pedro de Alcantara, no Sul de Espanha, está a sair de um período de depressão e de descrença em relação ao futuro do país. Está longe de Portugal durante grande parte do ano de 1975. São Rui Machete e a mulher quem o convencem a vir votar nas eleições para a Assembleia Constituinte, em 1974, quando Sá Carneiro estava em Londres. "A minha mulher transmitiu-lhe o que eram as expectativas das pessoas que acreditavam nele e que ele iria defraudar. Disse-lhe que ele era cobarde, coisa que ele não era, fisicamente até exagerava um pouco."

É um Sá Carneiro abatido que encontram, o oposto da imagem do líder combativo. "Essa depressão foi muito motivada pela doença e ele estava sob grande influência do seu irmão Ricardo, que na altura achava que o país estava perdido e que a sobrevivência em termos de liberdade passava por reconstruir a vida no Brasil. Ele estava muito inclinado a isso." Sá Carneiro fica em casa de Rui Machete, quando vem votar nas eleições de 1975, onde recebe a visita dos pais: "Há uma reconciliação e nota-se muito, particularmente a mãe, que era uma pessoa muito conservadora. Tinha uma relação difícil com o pai, por motivos profissionais. O membro da família com quem ele se dava mais intensamente era o Ricardo. A sensação que tive é que naquela conversa deve ter havido muita influência do seu meio do Porto, da sua vida anterior, porque ele vivia uma vida completamente diferente."

Pressa de viver

Em Janeiro do ano seguinte, dá-se o acontecimento que vai mudar a vida afectiva de Sá Carneiro: conhece Snu Abecassis e, como descrevem as duas biografias do político, é o coup de foudre: uma paixão que o ligará até ao fim à editora dinamarquesa, que vivia em Lisboa desde 1962 e lançara as Publicações D. Quixote em 1965. Relação que ele assumirá com uma frontalidade total, independentemente dos custos políticos que pudesse vir a pagar.

O homem que tem pressa é um homem em mudança. Encontra em Snu a tranquilidade e um universo cosmopolita que o seduz. Continua a ter pressa de viver cada dia.

"A doença fê-lo mudar de mentalidade. Ele era uma pessoa muito radical", recorda Francisco Pinto Balsemão. "A Snu fê-lo mudar para melhor, ele mudou através dela. Evoluiu, abriu-se mais para a vida, estava melhor com ele próprio." O que o leva a assumir a ruptura, agora no plano familiar? "Pela mesma razão de sempre, se achava que o devia fazer, ia em frente", responde Balsemão.

Lisboa mudou o advogado da Foz que crescera a passar férias na Granja e construíra uma quinta em Barcelos? Vasco Pulido Valente diz que não: "Ele seguiu sempre as suas raízes até às últimas consequências." Rui Machete acha que Sá Carneiro "foi sempre marcado por um certo provincianismo nalguns aspectos de que nunca conseguiu libertar-se. E Snu Abecassis ajudou-o muito". Mas para o advogado e antigo presidente da FLAD, há duas outras mulheres incontornáveis na história de Sá Carneiro na capital: Conceição Monteiro, a secretária e o apoio de todos os momentos, e a poetisa Natália Correia. Foi Natália quem, num almoço no restaurante Tavares, falou a Sá Carneiro da "princesa nórdica" que estava à espera de um príncipe, que era ele. Era no Botequim, o bar de Natália na Graça, que Sá Carneiro se envolvia de outra forma na vida nocturna de Lisboa. "A Natália Correia foi uma espécie de deus ex-machina, há algum deslumbramento dele que resulta de algumas sessões nocturnas em que se discutiam política, literatura, porque isso era uma novidade que contrastava muito com a experiência anterior. Ela e a Conceição sentiam que ele precisava de respirar de uma maneira mais aberta." E acrescenta: "[Sá Carneiro] É um personagem trágico, as pessoas que o rodeiam têm alguns aspectos shakespeareanos."

Snu acompanhou-o até ao fim, até ao voo fatídico. Quantas vezes vamos ouvir perguntar ainda: o que teria acontecido, se eles tivessem seguido para o Porto, para o comício final da campanha de Soares Carneiro, no avião da TAP? Muitas vezes antes ele escolhera voar, mesmo quando as condições de segurança não estavam garantidas, tal como guiava sempre demasiado depressa. Duas convicções prevalecem até hoje - acidente ou atentado contra Amaro da Costa. O processo poderá ser reaberto em sede parlamentar, segundo admitiu esta semana Passos Coelho, no lançamento do livro Camarate Um Caso em Aberto, de Freitas do Amaral. Nada disso acrescenta o que quer que seja às duas perguntas que sobraram para o futuro: o que teria ele feito depois da derrota de Soares Carneiro e o que resta hoje da marca que deixou no país e, sobretudo, no partido.O último combate

Depois de conquistar a segunda maioria absoluta da AD, Sá Carneiro parte para o seu último combate com uma estratégia de tudo ou nada: ou o seu candidato vence as presidenciais, ou ele deixa o poder. Estratégia de alto risco? Vasco Pulido Valente diz que não. "Não era uma aposta de risco, era uma aposta muito prudente. Imagine o Sá Carneiro continuar a primeiro-ministro, o que lhe aconteceria a seguir? Tinha tudo tapado, sem possibilidade de reformar o Estado e à mercê do veto político do Conselho da Revolução que o podia pôr na rua por uma ninharia qualquer que o humilhasse." Ao mesmo tempo, a estratégia do tudo ou nada era um beco sem saída: "Quando chega ao fim do jogo, não pode dizer ganhámos, mas agora não podemos continuar a jogar com este presidente do clube."

Depois das presidenciais "ele saía e ficava com o prestígio e o poder; e mais adiante voltaria", diz o então estratego da AD. Faria um partido novo, continuaria no PSD, conseguiria antecipar a liberalização política e económica do regime pela qual se bateu e que só ficou concluída na revisão constitucional de 1989? O historiador Rui Ramos tenta esse exercício, num ensaio na última edição da revista do Expresso, antecipando uma radicalização que teria posto em causa o Bloco Central. Os exercícios de adivinhação valem o que valem; mas, em qualquer cenário, teria sido plausível vê-lo candidatar-se às presidenciais de 1986, que Freitas do Amaral disputou. Essa campanha foi a última expressão do espírito da AD de Sá Carneiro.

E o que sobra de Sá Carneiro no PSD de hoje? Cavaco, o ministro das Finanças de Sá Carneiro, teria sido o primeiro-ministro Cavaco Silva, se Sá Carneiro fosse vivo? Cavaco destruiu o partido de Sá Carneiro, como defende José Miguel Júdice? Pinto Balsemão acha que não é possível comparar épocas distintas: "É outra fase, a história não se repete." Pedro Passos Coelho diz que o partido "tornou-se mais institucional, quando o PSD de Sá Carneiro era quase o partido da contra-revolução, do 25 de Novembro que lutou por desfazer todos os excessos que vinham do Verão de 1975 e que eram um tabu nessa altura. Isso deu a Sá Carneiro um cunho iconoclasta que hoje não está presente no PSD".

Hoje ainda há quem diga ao líder do partido o que Sá Carneiro teria feito numa dada situação, mas é uma memória menos presente. "Isso sobrevive nas pessoas mais antigas, mas hoje alguém até aos 40 anos não tem qualquer memória vivida dele", diz Passos Coelho. Paulo Rangel considera que a marca do líder carismático sobrevive "no carácter quase sebastiânico da expectativa das bases em face das lideranças. Esse lado carismático - muito potenciado pela lógica da ruptura e da clarificação - também ajuda a explicar a vertente conflitual, consumidora e por vezes autofágica do partido".

Em 30 anos, os tempos, as circunstâncias, as ideias mudaram. Demasiado depressa, mesmo para um líder que viveu demasiado depressa. "A referência ao Sá Carneiro é hoje muito mais ritual e de bom-tom do que verdadeiramente vivida, pelo menos pela maioria", diz Rui Machete.

O que sobra de Sá Carneiro, 30 anos depois de Camarate? A um outsider a palavra final. "Os tempos difíceis fazem os grandes líderes", responde Medeiros Ferreira.Estamos a viver tempos difíceis?

fonte: Público

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O adeus a Leslie Nielsen, o detective desastrado


O actor tornou-se conhecido pelas várias comédias em que parodiava outros filmes, como 'Aeroplano!' e 'Aonde É Que Pára a Polícia'. Morreu de uma pneumonia aos 84 anos

Caretas e mais caretas. Leslie Nielsen, o actor que nos habituamos a ver nas comédias de domingo à tarde na televisão, estava sempre a fazer caretas, até mesmo quando fotografado em passadeiras vermelhas ou em cerimónias mais oficiais. Mas nem sempre foi assim.

Nascido em Regina, Canadá, a 11 de Fevereiro de 1962, Leslie Nielsen costumava dizer que o mau tempo da região - muito frio, com graus negativos, durante quatro meses do ano - foi o combustível que, durante a infância, alimentou a sua fantasia. Cumprido o serviço militar, nas forças aéreas canadianas, ganhou uma bolsa para estudar teatro em Nova Iorque. Começou a carreira como actor de televisão. A sua estreia aconteceu em 1948 na série Studio One, ao lado de Charlton Heston.

A experiência de trabalhar em séries gravadas com público revelou-se essencial quando, em meados dos anos 50, se mudou para Hollywood, tirando partido do seu bom aspecto e dos 1,87 metros de altura para conseguir os primeiros papéis. Quem duvida que o veja no primeiro papel que conseguiu num filme, Planeta Proibido, em 1956. O sucesso abriu-lhe as portas e Nielsen viria a interpretar papéis principais noutros filmes, como The Opposite Sex, de David Miller, nomeado para um Globo de Ouro na categoria de Melhor Musical ou Comédia em 1956; Tammy and the Bachelor (1957), de Joseph Pevney, com Debbie Reynolds; e A Aventura do Poseidon (1972), de Ronald Neam. Ao longo dos anos 60 e 70, com o cabelo a ficar cada vez mais branco, participou em inúmeros filmes e séries, como Dr. Kildare, Espingardas do Faroeste, Bonanza, MASH, Columbo, O Barco do Amor e até a Ilha da Fantasia .

Como escreveu o The Guardian, Leslie Nielsen passou 30 anos a tentar ser um actor respeitado pelos seus papéis sérios e depois passou os restantes 30 anos a interpretar sempre o mesmo papel cómico. A mudança aconteceu em 1980 com Aeroplano!, filme dos irmãos Zucker que parodiava os filmes-catástrofe então muito em voga. A partir de então, Leslie Nielsen tornou-se o rei das paródias, ou seja, especialista em filmes que gozam com outros filmes. Este foi também o título que inaugurou a parceria entre Nielsen e os irmãos Zucker - que iria aprofundar-se com a série Police Squad , em que interpretou pela primeira vez o papel do detective-com-queda-para-acidentes Frank Drebin, que lhe valeu uma nomeação para os prémios Emmy. Apesar de a série ser cancelada após seis episódios, Nielsen levaria a personagem para os três filmes Aonde É Que Pára a Polícia (Naked Gun), novamente assinados por David Zucker, nos quais criou algumas cenas hilariantes. No total, o actor participou em mais de cem filmes e ganhou uma estrela com o seu nome no Passeio da Fama de Hollywood.

Há cerca de duas semanas, Leslie Nielsen foi internado no hospital de Fort Lauderdale, na Florida, com uma grave pneumonia. O actor de 84 anos morreu na madrugada de ontem. "Acompanhado pelos amigos e pela mulher, apenas adormeceu e morreu", contou à AFP o sobrinho Doug Nielsen. Os familiares pedem aos fãs que, em vez de enviarem flores, manifestem o seu apreço fazendo doações em seu nome a organizações de beneficência.


fonte: DN

sábado, 23 de outubro de 2010

Morreu Mariana Rey Monteiro


Perto de completar os 88 anos, a actriz Maria Rey Monteiro faleceu ontem, em sua casa, em Lisboa, de causa natural.

O corpo de Mariana Rey Monteiro vai na quinta feira para a Igreja de Santos e na sexta para o Cemitério dos Prazeres, adiantou à Lusa uma neta da actriz, Mariana Lino Coelho.

Mariana Rey Monteiro, natural de Lisboa e filha de Amélia Rey Colaço e de Robles Monteiro, estreou-se no Teatro Nacional, em 1946, na peça Antígona, de Sófocles.

Em 1962, recebeu o Óscar da Imprensa pela sua participação no filme Um dia de vida.

Na televisão, tornou-se conhecida do grande público na série Gente fina é outra coisa e em novelas como Vila Faia, Cinzas, Vidas de Sal e Roseira Brava

fonte: Sol

Pelé, o "rei" que interrompeu uma guerra civil em África


Pelé, com 21 anos, dias antes do Brasil-Inglaterra do Mundial de 1962

Brasil comemora o 70.º aniversário de Edson Arantes do Nascimento, imortalizado como Pelé, ainda hoje um ícone mundial

Pepe, o "canhão da vila", marcou 405 golos pelo Santos, mas nem assim é o primeiro da lista. "Costumo brincar que sou o maior artilheiro do Santos. Não vale comparar com o Pelé, porque ele não é humano". Pelo menos, é o único "internacional" brasileiro e nigeriano da história. Neste planeta, Pelé, que até nasceu numa vila chamada Três Corações, cumpre hoje 70 anos, depois de ter conseguido dobrar as leis da física para eliminar dois dias do calendário - 21 de Outubro de 1940 é a data da certidão de nascimento (culpa do pai), mas ele terá de facto nascido um par de dias depois. 

Muita coisa em Edson Arantes do Nascimento foi culpa do pai, Dondinho, um avançado ágil que jogava bem com os dois pés e com a cabeça, e que, pela descrição, alguma coisa terá passado ao filho que este fim-de-semana será homenageado pelo Campeonato Brasileiro: a 31.ª ronda chama-se Jornada Pelé 70 Anos e Neymar, estrela do Santos, o clube em que o "Rei" passou grande parte da carreira, vai actuar com o n.º 70.

Ícone global, considerado por muitos o melhor futebolista de todos os tempos (descontando, pelo menos, toda a população da Argentina), o homem que lançou a lenda do n.º 10 apresenta como cartão-de-visita os 1284 golos (na soma entram os jogos particulares), 1091 deles pelo Santos, e os três Mundiais conquistados - ninguém marcou ou ganhou tanto.

Mas, afinal, quão bom era o brasileiro? Tão bom que foi eleito atleta do século pelo conjunto dos Comités Olímpicos Nacionais, apesar de ser o único do top 5 (Muhammad Ali, Carl Lewis, Michael Jordan e Mark Spitz) que não participou nos Jogos Olímpicos. Tão bom que num amigável entre o Santos e a selecção pré-olímpica colombiana, em Bogotá, foi expulso, mas a polícia, temendo a revolta popular e uma tragédia, substituiu o árbitro e Pelé voltou ao jogo. Tão bom que interrompeu temporariamente a guerra civil na actual República Democrática do Congo, quando disputou duas partidas de exibição no país.

Tão bom que, mesmo aqueles que só o viram jogar por partes no YouTube ou em documentários, acreditam que ele seria mesmo capaz de fazer o que disse aos colegas prisioneiros de guerra e desenhou a giz no quadro da táctica de cada vez que há uma reposição do filme Fuga para a vitória: "O Hatch [guarda-redes] passa-me a bola, eu faço isto, isto, isto, isto, isto, isto, isto... golo! Fácil". Sim, teve qualidade para haver um Estádio Pelé em Teerão ou para que duas das suas jogadas no México 70 tenham ficado para a História, apesar de terem falhado o objectivo final: o remate antes do meio-campo à Checoslováquia e a finta sem tocar na bola ao guarda-redes uruguaio foram "os golos que Pelé não marcou".

Doze anos antes, tinha-se apresentado ao mundo com seis golos em quatro jogos para liderar o Brasil ao primeiro título mundial do país. Tinha 17 anos. À custa da sua fama, o Santos deu a volta ao mundo em digressões. Pelé jogou até 1977, mas nunca deixou de lucrar com o que conseguiu nos relvados. Segundo o jornalitaliano Corriere dello Sport, factura anualmente 18 milhões de dólares (20,3 milhões de euros) em publicidade, superando estrelas como Messi ou Ibrahimovic, o que dá razão ao que Andy Warhol disse um dia: "Em vez de 15 minutos, Pelé terá quinze séculos de fama".

A celebridade de Pelé levou-o até a fazer um jogo pelo Fluminense e outro pela selecção da Nigéria numa viagem em que fez publicidade a electrodomésticos brasileiros. O maior goleador da história da selecção brasileira só tem uma regra: não vende a imagem a marcas de bebidas alcoólicas.

Pelé não parece mesmo um simples mortal. Como comprovou em primeira mão Tarcisio Burgnich, defesa da Itália na final do Mundial de 1970. "Disse a mim mesmo, antes do jogo: "Ele é feito de carne e osso, como toda a gente". Estava enganado".

fonte: Público

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Morreu o fundador da Penthouse


Bob Guccione morreu ontem aos 79 anos vítima de um cancro nos pulmões

Bob Guccione, o fundador e editor da revista masculina Penthouse, morreu ontem ao 79 anos vítima de um cancro nos pulmões. De acordo com a CNN, o fotógrafo morreu no hospital onde se encontrava internado com a mulher e dois dos filhos a seu lado.

Após lançar a revista com conteúdos eróticos em 1965, Guccione criou um império enorme na área dos media, facturando milhões. Mas anos mais tarde, com a concorrência da Internet, começou a passar por algumas dificuldades.

Nascido em Brooklyn, Nova Iorque, nos Estados Unidos, Guccione trabalhou como caricaturista e gerente de uma empresa de lavagem de carros em Londres. Foi na capital inglesa que teve a ideia de fundar uma revista de cariz erótico para concorrer com a Playboy.

Para promover o primeiro número da Penthouse, Guccione teve uma ideia de génio. Enviou via correio panfletos com teor pornográfico a padres, alunas, reformados e às mulheres de membros do parlamento britânico. Valeu-lhe na altura uma pesada multa, mas a publicidade foi tanta que os 120 mil exemplares da primeira revista esgotaram-se num ápice.

fonte: DN

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Afinal Homer Simpson é católico


O jornal do Vaticano declarou que Homer Simpson, pai da família mais conhecida dos Estados Unidos, é católico.

"Poucas pessoas o sabem e ele faz tudo para o esconder, mas é verdade: Homer J. Simpson é católico", escreveu na edição deste fim-de-semana o L'Osservatores Romano, sob a manchete: "Homer e Bart são católicos".

Em Dezembro passado, o jornal elogiou a famosa série de desenhos animados no seu 20.º aniversário pelo seu pendor filosófico e abordagem irreverente da religião.

Este é o exemplo mais recente do esforço que o jornal do Vaticano tem desenvolvido nos últimos anos para ser mais relevante e segue-se aos louvores feitos ao jovem feiticeiro britânico Harry Potter e aos Beatles. Em 1966, John Lennon afirmou que a banda britânica era mais popular que Jesus.

O jornal citou uma análise de um padre jesuíta, Francesco Occhetta, sobre a conversão de Homer e do filho Bart, num episódio de 2005, depois de um encontro com o simpático padre Sean, cuja voz pertence ao actor Liam Neeson.

O L'Osservatore afirmou que a análise mostra que as anedotas da série de culto assentam em temas "relacionados com o sentido e a qualidade da vida".

"Os 'The Simpson' continuam a ser um dos poucos programas infantis em que a fé cristã, a religião e Deus são temas recorrentes", acrescentou. "A família reza em conjunto antes das refeições e, à sua maneira, acredita no paraíso".

Mas o produtor da série Al Jean afirmou que o Vaticano pode ter exagerado na sua análise, uma vez que Homer e Bart só pensaram na conversão no episódio de 2005, de acordo com o site Entertainment Tonight.

"Mostrámos claramente que Homer não é católico. Penso que ele não aguentaria deixar de comer carne às sextas-feiras", disse Jean, acrescentando que a família frequenta a Primeira Igreja de Springfield "decididamente Presbiluterana".

fonte: DN

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O resgate dos mineiros em Vídeo


Veja aqui os vídeos com as imagens do resgate dos mineiros soterrados desde 5 de Agosto numa mina no deserto de Atacama, a norte do Chile.

1º Mineiro


2º Mineiro


3ª Mineiro


4º Mineiro


5º Mineiro


6º Mineiro


7ª Mineiro


8º Mineiro


9º Mineiro


10º Mineiro


11º Mineiro


12º Mineiro


13ª Mineiro


14ª Mineiro


15º Mineiro


16º Mineiro


17º Mineiro


18ºMineiro


19º Mineiro


20º Mineiro


21º Mineiro


22º Mineiro


23ª Mineiro


24º Mineiro


25º Mineiro


26º Mineiro


27º Mineiro


28º Mineiro


29º Mineiro


30º Mineiro


31º Mineiro


32º Mineiro


33º Mineiro


fonte: DN

sábado, 9 de outubro de 2010

Unidos por um prego imaginário


Fosse vivo, John Lennon completaria hoje 70 anos. Ao DN Yoko Ono explica como se empenhou na campanha de reedições que agora chegam às lojas e recorda episódios de uma vida a dois, um deles à volta de um prego, numa exposição.

O que faria hoje John Lennon se ainda fosse vivo? 70 anos, certamente, como de resto manda o calendário de quem nasceu a 9 de Outubro de 1940 (num hospital de Liverpool). E, musicalmente? "Ele teria avançado rumo aos computadores", responde sem hesitar Yoko Ono, a viúva com quem o DN falou há algumas semanas num hotel no centro de Londres, onde apresentou não apenas a série de antologias e reedições de títulos da obra de Lennon que acabam de ser editadas, como partilhou memórias da sua vida a dois com um dos ícones maiores da história da música.

Conheceram-se ainda os Beatles viviam os seus melhores dias. "Foi uma hora antes da inauguração de uma exposição minha" em Londres, recorda Yoko Ono. "Tínhamos acabado de montar tudo e disse ao dono da galeria para não deixar entrar ninguém antes da inauguração. Mas ele apareceu-me com um tipo ao lado dele. Se calhar era um amigo próximo dele e não deveria dizer nada... Entraram, desceram à cave..." Decidiu segui-los e desceu também as escadas. "Estava a uns dois metros e o dono da galeria viu que eu ali estava e disse para o John: 'Olha, esta é a artista.'" O galerista não lhe disse então o nome do convidado... "Nem o faria, porque era um Beatle", reconhece Yoko. "Mas não reparei, mesmo que ele tivesse dito John Lennon", confessa. E então falaram pela primeira vez: "O John perguntou-me se poderia pregar um prego... E eu disse que, se pagasse cinco xelins, poderia. E isso era o que eu tinha pensado na noite anterior. Ninguém iria comprar o meu trabalho, assim tinha de encontrar uma forma de me ajustar financeiramente. E pensei que poderia cobrar sempre que alguém fizesse algo. Cinco xelins... Ele então respondeu se poderia pregar um prego imaginário... E pensei, este tipo está a jogar o meu jogo... A verdade é que ele não tinha dinheiro nenhum com ele", revela. Yoko reconhece que, na altura, estava longe de conhecer bem os Beatles. "Conhecia o nome Ringo, porque quer dizer maçã em japonês. Tinha lido algo sobre os Beatles num jornal quando ainda estava no Japão. Eram uns tipos com uns penteados estranhos e muito populares. Mais nada..."

Não muito tempo depois, Yoko era presença inse-parável ao lado de John, inclusivamente entre os restantes elementos dos Beatles. Contudo, e mesmo depois de terminadas as gravações de Abbey Road, no Verão de 1969, não pensava que o fim da banda seria inevitável tão pouco tempo depois. "Não pensei que fossem acabar. Pensei que continuariam... Talvez na sua mente ele pensasse que gostaria de se tornar mais livre", comenta.

Na verdade, John Lennon iniciou uma carreira a solo ainda os Beatles editavam discos. Mas desde logo ficava clara a expressão de uma personalidade mais política que o que alguma vez havia mostrado entre os fab four. "No momento em que ele se afirmou como um indivíduo, como um autor de canções, achou que seria correcto expressar-se à sua maneira e como o desejaria fazer. Nos Beatles ele tinha de ter em conta os outros. E acho que ele teve razão em fazer as coisas como fez", explica.

Hinos como Give Peace a Chance ou Xappy Xmas (War Is Over) são apenas alguns exemplos da manifestação de um espírito político cuja acção chegou inclusivamente a incomodar a administração Nixon em inícios dos anos 70. "Toda a gente o conhecia. Eu tinha ali um papel secundário. Mas penso que o facto de ele ter surgido daquela forma os terá tocado", confirma a artista.

A paz mundial estava na agenda do casal. E entre as manifestações que criaram para a tentar promover, contam-se os famosos bed-ins, nos quais John e Yoko, deitados nas suas camas de hotel, abriram as portas dos quartos, deixando entrar os jornalistas. Perante a ideia, certamente houve quem esperasse escândalo... "Ui, ficaram tão desapontados! ", graceja hoje Yoko Ono. "Acho que as pessoas se riram. Não esperávamos que se rissem", comenta. "Pensámos que sempre que fizéssemos algo em favor da paz mundial, tudo estaria diferente num ano. Que haveria paz dentro de um ano... E isso nunca aconteceu. Mas hoje sinto que 99 por cento das pessoas no mundo desejam a paz. E o um por cento que fica de fora está apenas a ser malandro. É preciso que se compreenda que somos um vastíssimo grupo de pessoas que o desejamos", alerta quase em forma de apelo. Mas, "como John o disse em tempos, esta não é a época para apenas um herói. Não posso apontar uma pessoa apenas que carregue o fardo deste incrivelmente complexo mundo. Ou seja, todos teremos de fazer qualquer coisa".

No momento em que passam 70 anos sobre o nascimento do músico (e no mesmo ano em que se assinalarão os 30 anos da sua morte), como acha Yoko que ele gostaria de ser recordado. O cantautor? O promotor da paz no mundo? O working class hero (herói da classe trabalhadora), como ele mesmo cantou? "Era tudo o que ele era, sim... Mas ele não pensava em nada disso quando trabalhava. Ele tinha apenas 40 anos", sublinha.

Nos últimos meses, a artista acompanhou pessoalmente a preparação de uma série de lançamentos que agora assinalam a data. "Estes são os 70 anos, a próxima data a assinalar deverão ser os 80" e, acrescenta, espera "ainda estar por cá". Mas sublinha que "este é o momento para fazer tudo isto pelo trabalho do John". Uma das razões pelas quais enfrentou este desafio foi mesmo "o facto de acreditar que o poder do seu espírito, a sua energia, ser algo de que precisamos agora". Yoko lembra que "as novas gerações, mas também nós, vivemos num clima de medo. E isso decorre do facto de tantas tragédias que aconteceram. Mas temos uma energia que podemos usar para mudar o mundo. E para isso o John é muito bom. Disse Gimmie Some Truth". É, explica, uma pequena observação "que traduz aquilo de que precisamos mais nestes tempos". A verdade é, diz ainda Yoko Ono, "um soro muito importante na vida. E está em falta. O John cantou sobre muitas coisas. Atreveu-se a dizer certas coisas... Arriscando mesmo a sua própria vida, de certa forma". De resto, Yoko Ono acredita que "ele teria sobrevivido se tivesse feito apenas canções bonitas. A sua atitude sobre outros assuntos fez com que algumas pessoas se irritassem".

A morte de Lennon, essa não a consegue explicar. Nem mesmo quando se lhe pergunta se leu o livro Agulha no Palheiro, de J. D. Salinger, que terá inspirado o assassino Mark Chapman, em busca de uma qualquer possível justificação. "Não faço ideia... Há pessoas que enlouquecem e matam a sua própria família... E sem razão, muitas vezes. Há muita loucura no mundo", remata.

Durante anos, Yoko Ono foi muitas vezes acusada de ter feito toda uma vida na sombra de Lennon. "Acusada de viver à sombra de um génio?", questiona. E responde: "Uma das razões pelas quais não acredito que assim seja é o facto de ter tido sempre confiança no meu trabalho. Mas havia ali uma árvore bela e uma sombra que me protegeu, e isso fez-me sentir bem."

O jornalista viajou a convite da EMI Music Portugal

fonte: DN

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Janis Joplin. A primeira estrela rock feminina morreu há 40 anos

A 4 de Outubro de 1970 Janis Joplin foi encontrada morta num motel com uma overdose. Depois de Jimi Hendrix, a década de 60 perdia mais um ídolo. A vida, os amores, os excessos e o legado da "tia branca dos blues". No documento ao lado pode recortar a boneca e escolher as suas roupas preferidas


Janis Joplin morreu com 27 anos em 1970
Bastaram cinco anos e quatro álbuns para que Janis Joplin passasse de menina gozada no liceu a estrela rock. A voz rouca e quente fez dela a primeira mulher com estatudo equivalente a Jimi Hendrix ou Jim Morrison. Numa entrevista em 1969, o apresentador Dick Cavett perguntou-lhe: "Por que é que não há mais estrelas rock femininas?" "Não sei. Talvez não seja uma coisa muito feminina entrar na essência da música. Muitas cantoras ficam só pela superfície, em vez de sentirem a música", respondeu Janis. Nesse mesmo ano, a "Newsweek" pôs Janis Joplin na capa com o título "Rebirth of the Blues" (Renascimento dos Blues). Tudo parecia correr-lhe bem, mas um ano depois morreu.
A 3 de Outubro de 1970, a cantora que nasceu em Porth Arthur, Texas, trabalhou até tarde no novo álbum. A seguir, foi beber uns copos com os amigos e quando chegou ao quarto do motel em Hollywood, encheu a seringa com heroína e espetou a agulha no braço esquerdo. Ainda teve tempo para ir ao lobby pedir troco de uma nota para comprar tabaco. Entrou no quarto e caiu. No dia seguinte, foi encontrada morta pelo road manager, John Cooke, que estranhou o atraso para as gravações. Uma overdose acabou com a vida da primeira branca a ser senhora do blues.
Mas deixou legado. "PJ Harvey é uma das cantoras que já confirmou essa influência. Janis foi provavelmente a cantora branca com o coração e a voz mais negra da história do rock. Ela gravou poucos álbuns, mas tem uma força tão grande que deixou marcas. Não é a mãe dos blues, mas pode ser a tia branca", explica o jornalista e crítico de música, António Pires. Pedro Boucherie Mendes, júri do "Ídolos", não aprecia artistas que se autodestroem, mas reconhece a importância de Janis. "Tinha uma voz potente e capacidade de interpretar. Com Janis tinhámos a certeza de que só ela pessoa poderia cantar daquela forma. É uma qualidade rara."
Do Texas à Califórnia Filha de um engenheiro e de professora, Janis Lyn Joplin era a mais velha de três e parecia destinada a uma vida pacata de secretária. Mas cedo se sentiu deslocada. Era gozada na escola por ter uns quilos a mais e pela forma como se vestia - chamavam-lhe "porca" e "freak". "Achavam que era louca. Não gostavam de mim. Era suposto casar-me, ter filhos e ficar de boca calada. Não fiz nada disso", contou aos jornalistas. "Não encaixava naquele sítio. Lia, pintava e não odiava negros."
Em 1962, entrou para Belas Artes, na Universidade do Texas, em Austin. Mas não foi muito bem recebida. Quando lhe deram o prémio de "Homem mais feio no Campus", desistiu e rumou à tolerante California. É lá que conhece os "Big Brother and the Holding Company", que gostaram da voz incomum de Janis e contrataram-na. O sucesso da cantora cresce à medida que os seus vícios aumentam. Por dia gastava cerca de 200 euros em heroína, fora o álcool. Tenta várias desintoxicações, com a ajuda de namorados e namoradas. No ano da sua morte, viaja para o Brasil e apaixona-se por David Niehaus, um professor primário. Por ele, deixa a droga, mas nos Estados Unidos volta a consumir heroína.
A cantora, que chegou a estar noiva quando vivia no Texas, lançou o primeiro álbum a solo em 1969, no mesmo ano em que participa no Festival Woodstock. Defendia que temos de ser verdadeiros e garantia que nunca se deslumbrou com a fama. No auge da carreira, perguntaram-lhe se nunca se cansava dos concertos: "Tocar é a melhor coisa que já me aconteceu." Não o disse na mesma entrevista, mas é uma das citações mais referidas de Janis: "No palco, faço amor com 25 mil pessoas diferentes, depois vou para casa sozinha."



fonte: Jornal i

Veja aqui os telegramas publicados por The Guardian

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